Aprendendo a voar
Terça-feira, Junho 15, 2004
Nono andar
Minha liberdade me custou caro, eu sei. Mas não a trocaria por nada.
Voar alto, com asas só minhas, foi um aprendizado duro e prazeiroso - coisa para Sade se deliciar.
Quando havia a dor também havia prazer e meus vôos foram longos... nem sempre quentes, nem sempre solitários, mas sempre compensadores, didaticamente compensadores.
Criança, ainda, vi uma borboleta saindo de seu casulo e nada me pareceu tão frágil - qualquer ventinho esmagaria fácil aquelas asas quase transparentes. Eu também aprenderia a voar - mas as minhas asas seriam firmes e eu não perderia o meu poder de pássaro. Não domaria meus sonhos.
Nadine olhou-se sordidamente no espelho e viu seus próprios pensamentos.
Tirava as meias e se lembrava daquela boca em seus pés, sugando seus dedos ainda no carro, das mãos que entravam pelo decote de sua blusa e expunha sua pele nua – e o semáforo maravilhosamente fechado.
Tesão antigo, acumulado, proibido e negociado – que importava agora? Não havia culpa nenhuma. Só prazer. Sem conseqüências no dia seguinte – exceto pela enorme vontade de rir ao encontrá-lo formalmente e lembrar da trepada tântrica-selvagem que tiveram e da qual ninguém mais sabia.
Nadine gostava de ser eroticamente explorada e dava, literalmente, tudo de si enquanto transava. Ficava de quatro com orgulho. Cavalgava com prazer um belo animal humano.
Passeava pela sala ainda deliciada com aquelas lembranças e não se importava com a janela aberta – sua pele era sempre quente.
No nono andar do prédio vizinho, a luz ainda estava acesa - como Nadine.
|| Nadine 9:23 AM
Sexta-feira, Maio 21, 2004
Octopus
A cada inverno vencido minha fome de conhecer mais, viver mais e ser mais parecia se renovar e eu novamente me entregava à quele jogo de buscar o que eu nem sabia que era.
Vivi em experimentos e tentativas. Leitura, teorias e práticas. Conheci o que há de melhor e uma boa parte do que havia de pior em mim e nos outros.
Sabia que não podia estar a salvo indefinidamente e ser encontrada era só mais um dos riscos que eu corria. E eu sempre gostei de correr riscos.
Aos oitenta, correr riscos passa a ser história, memórias, suspiros.
Nadine sabia que o momento estava chegando e estava nervosíssima. Apresentar aquele projeto era tudo o que havia sonhado e durante meses trabalhara duro para que fosse perfeito.
Sentada na cadeira de couro preto – o que fazia alguém comprar aquela coisa fria e impessoal? –, pensava no telefonema de sua mãe, desejando boa sorte. Incrivelmente, ela sempre estava lá, nos momentos decisivos, apesar de todo o rancor do passado. Se era sincero ou consciência pesada não importava.
O que importava é que elas já estavam distantes tempo demais. Tudo fora explicado e dito. Não havia mais motivo para culpá-la e Nadine já entendia tudo. Isso fazia muita diferença.
Não agüentava mais aquele monstro cheio de tentáculos em sua cabeça.
Demorou a entender que as coisas aconteceram naturalmente e seu pai não foi assassinado – ninguém produziu uma parada cardíaca nele, aquilo não era um seriado de TV.
Nadine sabia o que devia fazer e cuidadosamente planejava os próximos passos.
Era hora de dar vida ao seu projeto.
|| Nadine 1:03 PM
Quinta-feira, Maio 20, 2004
Setembro
Quando me vi no mundo era como se estivesse visitando o Éden: tudo era lindo, novo, eu estava ali mas não era parte de nada daquilo. Era uma estranha, estava de passagem.
Quis pertencer, ser aceita, adaptar-me àquele maravilhoso tédio do que é perfeito, mas como nada é perfeito, o tédio era aparente e ser aceita não me importava mais.
Passei a agir como eu quis, com as minhas regras, (in)conseqüências e desejos: eu era livre. Estrangeira e livre. Como em Pessoa:
“Lydia, ignoramos
Somos estrangeiros, onde quer que estejamos”
Nadine sabia que era domingo assim que abriu os olhos, mas não se moveu. Chorou lágrimas curtinhas em suspiros pequenos.
Sete anos voaram nas folhas de calendários com imagens que nem se lembrava mais...
Naquele dia entrou em casa e vira sua mãe sentada apática e seu irmão mais velho ao telefone, transtornado. Sabia que tinha sido seu pai, mas como?
Só algum tempo depois descobriu o que havia de errado naquela cena de setembro: o vizinho que segurava a mão de sua mãe se tornou seu padastro em apenas seis meses.
Nadine sabia bem o que foi a sua vida sem o pai querido, seu amigo de todos os momentos, para inveja dos meninos.
Da cama, através da claridade das cortinas, Nadine adivinhava a vizinha saindo com os cachorros e ouvia, do andar de cima, as passadas lentas e pesadas daquele que acabara de acordar.
Em algum lugar uma janela foi fechada e Nadine se encolheu.
|| Nadine 11:25 PM
Segunda-feira, Maio 10, 2004
Sexta-feira
Aos seis anos, eu já lia mais rápido que as crianças da minha idade e conhecia mais do que a escola me oferecia. Nem sempre prestava atenção na professora, mas adorava o cheiro do material escolar e escrever nos cadernos que enfeitava.
Tinha poucos amigos na classe e sentava sempre na primeira fileira, participando da aula como se só eu existisse ali, com aquele uniforme feio e lápis na mão. Aluna brilhante de raciocínio excepcional – uma professora me descreveu assim um dia.
Com o soar da campainha do fim da aula, vinha uma certa tristeza em ter que voltar para casa e voltar a ser ninguém.
Quando rompi com a família, jurei que aquela campainha nunca mais soaria outra vez.
Que dia feliz! Nadine olhava ansiosa para o relógio sobre sua “estação de trabalho” – as antigas baias – e contava os minutos para ir embora.
Até tinha vontade de cantar: nem tinha planos para aquela noite, mas só de saber que no dia seguinte não precisava voltar para aquela prisão já era o suficiente.
Carla já havia dito que ia sair com o noivo naquele dia e Lisa tinha concerto.
Se o Marcos estivesse sozinho já teria ligado para irem ao cinema.
Ir para casa e tomar sorvete de chocolate de novo?
Ficava deliciosamente tensa só de pensar que poderia estar naquele quarto hoje. Melhor tentar falar com ele. Não custava nada mesmo... o mínimo era um não.
Dezoito horas em ponto. Nadine voou para fora e para o ônibus que a levaria ao paraíso conhecido da felicidade física: uma boa sessão de sexo puro viciante.
Com muito suor, gemidos, pernas, mãos, boca na boca, boca na pele, cheiros, tremores...
Nadine desceu do ônibus com calor, tocou o interfone e subiu pelo elevador: a porta já estava aberta e ela entrou...
|| Nadine 12:13 PM
Quarta-feira, Maio 05, 2004
Em cinco minutos
Tinha ciúme do meu irmão caçula: todo o carinho, atenção e cuidados eram só para ele. Aquilo era insuportável - uma inexistência completa, passando em branco para os que me deveriam notar.
Foi tempestuoso o meu rompimento: deixar para trás aquele mundo tão concreto e firme fez a garotinha gritar de pânico, embora o cordão umbilical cortado fosse como um dose cavalar de Diazepam.
Dormir para acordar na Yellow Brick Road.
Dia claro e ensolarado. Preguiça de acordar. Espaço sobrando na cama e telefone fora do gancho...
Nadine bocejou, olhou as horas e se levantou naqueles melhores minutos da manhã sem muita vontade naquela rotina vamos-cumprir-o-programa-de-mais-um-dia-sem-novidades.
Queria trabalhar em algo diferente, como sua amiga Leila, que era cantora lírica e vivia do que gostava - parecia tão mais interessante...
E ela, Nadine, ficava ali, sonhando entre ser escritora, psicóloga, atriz/modelo/manequim/cantora/apresentadora, mas na verdade vivendo uma vida chinfrim, sendo paga apenas se trabalhasse.
Pela janela via que a senhora que criava uns dez cachorros, na casa em frente ao seu prédio, limpava o jardim cantarolando enquanto os poodles dormiam ao lado da porta. Que tipo de vida era aquela?
Sem nenhuma novidade. Exatamente como a dela.
|| Nadine 1:40 PM
Quarta-feira, Abril 28, 2004
Quarto
Nunca quis muitas coisas. Meus desejos eram simples e cabiam no instante da saciedade de fome por um pequeno doce. Vivia feliz com o que tinha - uma família amorosa e numerosa, numa casa pobre e com ratos caminhando no telhado, brinquedos simples mas eficientes e práticos. Meus sonhos de dançar ballet ou tocar piano eram bem abafados pela consciência de nossa condição.
Um dia, eu imaginava, vou poder fazer todas as coisas que quero!
Mas eu realmente nunca quis nada daquilo que achei que quisesse - ou teria lutado para consegui-las.
E, sim, o que eu realmente quis eu tive!Sempre.
Nadine olhou do relógio para o semáforo e quis gritar: aquele sinal verde com o bonequinho caminhando não ia aparecer nunca mais? As pessoas à sua volta carregavam sacolas de compras, havia uma mulher com um bebê que chorava e um louco que gritava palavrões enquanto agitava um cobertor no ar. O cheiro de asfalto quente recebendo os primeiros pingos de chuva lembravam a Nadine outros cheiros: o cheiro daquele quarto, da pele suada, do calor, do medo, da excitação, do prazer... era só fechar os olhos e podia rever todas as cenas, desde que se viram pela primeira vez, há quase três anos.
Nadine abriu os olhos. O bonequinho ficou vermelho de novo.
|| Nadine 11:43 PM
Quarta-feira, Abril 21, 2004
O Três
Apesar dos meus pais corretíssimos, minhas noções de bem e mal sempre foram muito pessoais. Mas reconheço o mal que me fazem. E nem sempre esqueço.
Perdão? Fica muito difícil perdoar alguém que abusa de sua confiança ou se aproveita de sua ingenuidade. É sempre a mesma história do amigo do seu tio que lhe passa a mão em lugares íntimos e você não tem coragem de contar a ninguém.
Esse incidente marcou a minha infância e ainda atrapalha a minha vida. Cada vez que penso que me soltei do peso disso, volto a lembrar daquelas mãos e sinto a repulsa e a culpa, principalmente culpa.
Nadine raramente o via. Mas sabia quando ele estava em casa. Ouvia os passos, a música, os miados dengosos do gato (gata?) quando ele chegava. Sabia, pelo peso e velocidade das passadas, quando ele estava de bom humor e ficava imaginando em que ele trabalhava.Uma vez o vira no elevador e mirou firme seus próprios sapatos. Não queria quebrar o encantamento de não conhecer bem seu rosto. Bastavam seus passos, por enquanto.
Quanta besteira: Nadine bridgetiando, fantasiando uma história sobre a vida de alguém que nem conhecia. Crap!
|| Nadine 10:24 PM